aprendendo a ver psicobela

“Aprendendo a ver”

6 de julho de 2012

Muito além de uma simples conversa!

Alguns pacientes contam que ao mencionarem que estão fazendo terapia, escutam de amigo, cônjuge ou conhecido: “mas porque você não conversa comigo, não vai nem precisar pagar”.

Ora, se estou com alguma dificuldade na visão, não deveria pedir para um amigo engenheiro dar uma olhadinha, certo?

O processo psicoterapêutico embora não carregue nenhum mistério é ainda desconhecido por muitos. Pela sua importância, vamos refletir sobre o tema.

Ano passado quando meu filho de 06 anos concluiu o primeiro ano, ganhou de presente da escola um livro intitulado: O menino que aprendeu a ver – de Ruth Rocha.

Um livro muito bem escrito que narra a história de um menino que aprendeu a ler. À medida que Joãozinho frequentava as aulas e aprendia as letras, passava a olhar o mundo em volta de uma forma bem diferente.

Ele observava que na rua, nas placas, nos cartazes, estava pintado o desenho da professora. Joãozinho não compreendia, no meio dos desenhos que João não conhecia encontravam-se as letras que a professora ensinava. Será que enquanto ele ia para a escola alguém pintava todos esses desenhos? Pensava ele.

Retornando à escola a professora ensinava novos desenhos e quando Joãozinho saia de lá já começava a procurar em todos os lugares os desenhos que a professora ensinava. Intrigado ele perguntou: – papai cada vez que eu vou para a escola pintam nas placas, nos livros, nos pacotes, nas paredes as letras que eu estou aprendendo. O pai respondeu: – É que você está aprendendo a ver João. – Mas eu já sei ver papai, respondeu João.

Não, meu filho, você agora está aprendendo a ver o que você está aprendendo a ler. Entendeu?

– Joãozinho coçou a cabeça e respondeu: não entendi nada!

E o milagre continuava acontecendo. Cada letra que Joãozinho ia aprendendo, logo aparecia em tudo que era lugar.

Até que chegou um dia em que João olhou a placa da sua rua e lá estava um nome que ele conhecia: Rua do Sol.  E de repente ele compreendeu: – eu já sei ler!

No dia seguinte quando foram apanhar o ônibus para irem para escola, a mãe de João o advertiu de que precisava ficar atenta para não perderem o ônibus. João bem faceiro disse à sua mãe: – pode deixar que eu presto atenção mamãe, agora eu já sei ver…

A psicoterapia é educação afetiva. Ficar atento, olhar, perceber, ler nossos pensamentos e sentimentos mais íntimos, nos ajuda a ver nossa subjetividade com lentes mais polidas e muitas vezes corrigir as distorções. Sim, muitos sofrem de miopia emocional.

No texto a Complicada Arte de Ver, Rubem Alves, psicanalista, educador, discorre sobre a complexidade em que consiste ver, destacando que esse ato não é coisa natural. Precisa ser aprendido.

Cita Nietzsche e sua afirmação de que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. E destaca os poetas como seres que nos ensinam a fazê-lo.

Aquilo que parece uma simples conversa num consultório psicológico, é na verdade uma reflexão analítica complexa que envolve muitos elementos cognitivos e emocionais envolvendo a percepção. Através dela é que olhamos o mundo a nossa volta e o interpretamos.

A jornalista Roberta de Lucca escreveu um texto muito interessante publicado na Revista Vida Simples e disponível no site psicobela, em que sugere alguns instrumentos como óculos, binóculos, microscópio, lanterna, metaforicamente utilizados no contexto da psicoterapia.

A atenção nos faz ao falar escolher fatos, experiências, sentimentos que são colocados sob “tais instrumentos”. Acionada nossa atenção, essa nos conduz a percepção, a consciência desses fatos para que possamos reconhecê-los, revisá-los, discriminá-los, organizá-los, reeditá-los e se necessário desconstruí-los e reconstruí-los.

Um dos aspectos fundamentais no desenvolvimento da autoestima, uma das prioridades de uma boa psicoterapia, é a ampliação da consciência, do senso de realidade. Buscando literalmente “enxergar” a si próprio, ao outro e o contexto.

À medida que aprende mais de si e do mundo que o cerca, o paciente apreende novas formas de ver e de viver. Alternando o foco, novas percepções são alcançadas, novos arranjos construídos e a paisagem interna e externa se alteram. Como no mundo de Joãozinho, aprendemos a ver melhor.

A relação terapêutica precisa de um elemento essencial: a confiança. Um psicoterapeuta deve ser um mediador, alguém consciente da responsabilidade, um técnico preparado para auxiliar seu paciente na travessia de uma margem a outra de si mesmo.

“Você valoriza em mim qualidades que eu nem conhecia, fortalezas que eu imaginava perdidas. Aspectos que com sua vida se renovam para meu crescimento. Eu tinha mesmo tudo isso escondido ou sua fé em mim fez tudo surgir e se desenvolver? Talvez não saiba nunca a resposta, mas agradeço sua descoberta”.

Reúno este belo texto supracitado de Marian Licht, presente de uma paciente a este outro citado abaixo de Eduardo Galeano, presente de uma amiga, para dizer que um psicoterapeuta é como um poeta, um educador, também ensina a ver.

“Diego não conhecia o mar. O pai Santiago, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.

Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.

E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: – Me ajude a olhar!”

Maria Marta Ferreira

Psicóloga CRP08/07401

Quer saber mais? Neste artigo falamos sobre o desafio de educar meninas. Aproveite 🙂

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