as xícaras de prata por luciana chemim psicobela

AS XÍCARAS DE PRATA POR LUCIANA CHEMIM

10 de outubro de 2013

Dia desses uma amiga veio mostrar fotos de um jantarzinho que promoveu para estrear suas novas receitas da culinária mexicana. Assim que vi o jogo de xícaras de porcelana e prata reluzindo em cima da mesa não pude deixar de comentar acerca da beleza e preciosidade daquelas peças. Pensei: “deve ser uma relíquia de família”! E, antes que pudesse externar meu pensamento, minha amiga comentou: “acredita que ganhei esse jogo maravilhoso da minha sogra e que ele ficou guardado há mais de 30 anos sem uso?”

Fiquei boquiaberta com o fato. Mais ainda ao saber que a sogra havia ganhado o jogo de presente de casamento. Como alguém consegue guardar um presente, por trinta anos, sem nunca usá-lo? Será que, em trinta anos, essa mulher não encontrou nenhuma ocasião que merecesse o uso dos utensílios de prata? Ou o aparelho de café se tornou mais especial do que qualquer momento vivido?

Em contrapartida, minha amiga estreou, sem qualquer cerimônia ou grande evento, o jogo maravilhoso de xícaras num encontro entre amigas em plena quarta-feira à noite.

Você pode estar pensando: “tá, mas e daí? Cada um faz ou não faz o que bem quer com sua relíquia de prata, de porcelana, de cristal, de tecido ou de que material for”.

É verdade, mas admito que me choca ver alguém se despedindo da vida com o armário abarrotado de coisas que nunca usou porque ficou esperando por uma ocasião especial, até porque, sou o tipo de gente que põe a blusa nova para ir ao mercado, que acende os candelabros de cristal quando falta energia, que usa as xícaras de prata num chá da tarde.

No caso da sogra da minha amiga quero acreditar que a senhora simplesmente não dá a menor bola pra essas coisas e que não usou o tal aparelho de café porque não quis e não por esperar um momento digno da importância do mesmo.

Mas é fato que tá assim de gente que guarda preciosidades esperando o dia perfeito para tirá-las do guarda-roupa, da cristaleira, do cofre, do coração, da mente e da alma. Assim como há também um punhado de gente que acumula entulhos que atravancam a vida, que impedem o crescimento, que amarram relações, que obstaculizam o seguir em frente.

Acho a vida breve demais para guardar seja lá o que for. Oswaldo já cantou a bola: “meu amor, a vida passa num instante e um instante é muito pouco pra sonhar”.

Penso que a cada dia morremos um pouco, cada momento vivido ou existido carrega um pedaço da nossa história, ainda que a gente nada faça, ainda que se cruzem os braços, ainda que se escolha guardar amores, rancores, versos, perfumes, sentimentos, abraços, afagos, afetos, beijos, declarações e até aquele “velho” jogo de xícaras de prata.

Essa crônica dedico a minha amiga Clarissa, que, como outros tantos amigos, não espera o dia de amanhã para ser feliz.

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