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“JUNTOS, NÃO MISTURADOS”

3 de setembro de 2012

A maioria de nós já ouviu a frase: “está na hora de cortar o cordão umbilical”. Desde a gestação aos primeiros meses de vida a relação simbiótica é uma realidade incontestável. Somos inteiramente dependentes.

O tempo vai passando e aos poucos o bebê vai conquistando cada vez mais independência, e segue rumo à autonomia. Pelo menos deveria.

Descrito assim em poucas linhas até parece um processo simples, mas indubitavelmente é um dos maiores desafios do desenvolvimento psicológico. O “suprassumo” da maturidade.

Para começar a se desprender, de descolar do outro é preciso olhar com verdade e interesse para si mesmo e iniciar uma “boa faxina”. Retirar e ou recolocar as coisas nos seus devidos lugares.

No decorrer de uma vida acumulamos além de experiências, “um bocado de lixo”, coisas que lançaram sobre nós, e outras que deliberadamente carregamos como se fossem nossas. Mas isso faz parte das identificações e projeções na construção da identidade. O importante é o que faremos com isso.

Quando crianças, recebemos das pessoas com quem convivemos os insumos para formar nossa autoimagem e autoconceito. Pilares importantes na composição da autoestima e fundamental na formação da personalidade.

Autoimagem é a forma como nos vemos. Se nos percebemos bonitos ou feios, ágeis ou lentos entre tantos adjetivos e atributos possíveis, depende e muito de como os adultos que conviviam conosco nos transmitiram uma mensagem positiva ou negativa a respeito da nossa aparência.

Autoconceito é o conteúdo da autoimagem. Se nos disseram que somos inteligentes ou bitolados, simpáticos ou tímidos, ordeiros ou descuidados. Essas palavras vão definindo o que pensamos sobre nós.

Pode ser que tenhamos tido um pai distante que nunca emitia um elogio ou uma mãe perfeccionista e crítica que nunca estava satisfeita com nosso desempenho. Ou pais superprotetores que não nos repreenderam com medo de nos fragilizar e nos ofertaram um falso conceito sobre nós mesmos de que podemos mais, do que realmente podemos.

Comumente ouvimos falar da importância da individualidade, tantas vezes confundida com individualismo, permeada por culpa, regada com medo.

Medo de frustrar o outro, decepcionar o outro, magoar o outro. O outro, o outro, o outro…E eu?

Sim, o outro, o próximo, que pode ser o amigo, o pai, a mãe, o marido, o filho, a namorada, o colega de trabalho. Seja quem for esse alguém ele é importante em algum grau.  Mas o eu também é!

A construção da individualidade somente é possível com a existência do “nós”. A presença, a convivência com o outro na formação dos vínculos afetivos, dos relacionamentos. Por isso o que o outro pensa sobre nós é importante sim, mas nem tudo e nem sempre.

 

Estar junto é gratificante, edificante, importante e necessário. Estar separados igualmente.

Há casais que fazem tudo juntos, já não sabem onde um começa, onde termina o outro. Há famílias que fazem tudo junto, já não sabem como cada um é, ou nunca souberam.

Necessidades diferentes em convivências misturadas costumam receber interpretação de egoísmo, indiferença, desinteresse, desamor. Simbiose se confunde com sintonia, e o não, tem sempre conotação de rejeição.

Uma paciente de 49 anos, um casamento de 19 relata com dor o pedido de “um tempo” feito pelo marido. Ele dizia precisar experimentar a vida de outro jeito, ver a vida de outro ângulo. Mas isso pode? E os planos que eram os mesmos? O sonho de viverem sempre juntos até a velhice? Os amigos que foram ficando pelo caminho, atividades individuais que foram suprimidas? Teriam se equivocado ao pensar que os dois se bastavam?

Essas experiências “sem você eu não sou ninguém”, “almas gêmeas”, “você é tudo para mim” parecem tão românticas, tão intensas. Mas, isso é perder a identidade. Quando nos misturamos com os outros em vez de apenas ficar juntos, nos perdemos e isso costuma não dar certo, por muito tempo.

Gosto muito de um texto atribuído a psicóloga Maria Beatriz Marinho dos Anjos intitulado O Laço e o Abraço“,  em que ela descreve de forma belíssima os movimentos de um laço, que abraça o presente, abraça o vestido, abraça o cabelo. Como um abraço de verdade, coração com coração, tudo cercado de braço.

O compara ao laço afetivo que enrosca, segura um pouquinho, mas pode se desfazer a qualquer momento deixando livre as bandas do laço e sem perder nenhum pedaço. E conclui dizendo que o amor é como um laço: não prende, não aperta, não sufoca, porque quando vira nó já deixou de ser um laço.

É uma boa metáfora para pensarmos a individualidade. Uma necessidade e um direito do indivíduo que se despe do outro e se reveste de si, reconhece e assume o seu próprio querer. Sem perder a dimensão das fronteiras.

Na faxina deve devolver “os pertences alheios”, que podem ser pensamentos equivocados, julgamentos, crenças tolhedoras, preconceitos. Mas deve abrir mão principalmente do desejo do outro que o asfixia com cobranças, expectativas e anseios sem medida.

Na faxina deve jogar fora o que já não serve mais, mesmo que outrora tenha sido importante, mas o tempo e a evolução tornaram obsoleto. Desapegue-se.

Com um pouco de culpa, um pouco de medo, de incerteza, não importa. Siga com coragem, porque individualidade é diferenciação, é nos reconhecermos diferentes do outro e não indiferentes a ele.

Devemos ter zelo, atenção e cuidado com o próximo, mas precisamos fazer o mesmo com a gente. Pois há muito nos foi ensinado que o amor ao próximo deve ser na mesma medida do amor por nós mesmos.

Por isso individualidade também é respeito. E respeito é liberdade que envolve responsabilidade, que nos remete a compromisso, a escolhas. Porque o legal mesmo é ser livre pra poder partir, mas ficar, simplesmente porque se quer.

 

Maria Marta Ferreira

Psicóloga CRP08/07401

Quer saber mais? Neste texto conversamos sobre estar desapaixonada e feliz. Aproveite!

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